[noite escura]
[noite: s.f. espaco de tempo entre o crepusculo e o amanhecer; obscuridade reinante nesse tempo] [escura: adj. obscura; falta de luz]

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30.9.03

[ao som de "Lá Em Baixo", Afinidades - Clã e Sérgio Godinho]
«Não acrescento pulsação ao silêncio e os poemas morrem
como se nunca tivessem feito amor.»

um_Sol, no seu tempo dual
# respirado por Vitor, 12:43
inquietações:

[ao som de "O menino do piano", Na Alma e na Pele - Mafalda Veiga]
No fim tudo se resume a isto: um silêncio sem palavras, nós dois sentados um diante do outro. Eu espero as tuas palavras arrependidas e tu as minhas.
Foram estes compassos de espera que nos cansaram e desgastaram a alma. Tenho hoje uma alma pequena, mais tua do que minha, cansada por ti e de ti, principalmente de ti. E tu igual a mim. Quase só por mesquinhez continuamos assim, calados, porque tememos mais a solidão do que este silêncio sem palavras.
# respirado por Vitor, 12:30
inquietações:


28.9.03

[ao som de "Clouds Up", The Virgin Suicides - Air]

# respirado por Vitor, 15:58
inquietações:

[ao som de "Anita", Compay Segundo - Repilado e Hierrezuelo]
«Black: Quem diabo és tu afinal?
Lulu: Eu sou eu. Apenas eu (Tira o chapéu e lança-o para o chão. Mete a mão no cabelo para o soltar e abana a cabeça)
Black: O que pretendes?
Lulu: (Desperta o casaco e também o lança para o chão) Não sei.
Black: Em que é que acreditas?
Lulu: (Tira os suspensórios e desaperta o botão das calças) Não sei. (Pausa) Não faças tantas perguntas. Não gosto disso.
Black:Tens alma?
Lulu: (Deixa cair as calças e afasta-as com o pé) Não sei.
Black: Já alguma vez amaste alguém?
Lulu: (Desabotoando a camisa) Não sei.
Black: (Abismado) Não sabes?!
Lulu: (Enfática) Não sei.
(A câmara aproxima-se para um close-up do rosto de Lulu, que continua a desabotoar a camisa. Nos bastidores, ouvimos:)
Catherine: E... corta.»

Paul Auster, in Lulu On The Bridge
# respirado por Vitor, 14:39
inquietações:

[ao som de "Se Fossem Todos Iguais A Você", Orfeu da Conceição - Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes]
«Tristeza não tem fim, felicidade sim...»
Tom Jobim
# respirado por Vitor, 14:28
inquietações:


27.9.03

[ao som de "Exilio", The Richest Man In Babylon - Thievery Corporation]
«E nunca te tive por medo de viver.»
Tania, no seu sem querer penso
# respirado por Vitor, 21:05
inquietações:

[ao som de "Butterfly", Film - The Gift]
hoje é dia de visitar um outro lado da noite, para ouvir coisas que não se ouvem
# respirado por Vitor, 14:27
inquietações:


26.9.03

[ao som de "Waiting For The Miracle", The Essential - Leonard Cohen]
«Se me importo que fumes? Não o fazias, mas não, não me importo. Ou melhor, não me interessa. Foram tempos difíceis, não foram? Mas o amor é mesmo assim, quando acaba só não destrói o que já está morto ou o que ainda não nasceu. E vê lá se paras de me deixar mensagens.»
antónio, no seu Cidade do Pecado
# respirado por Vitor, 15:59
inquietações:


24.9.03

[ao som de "Just Another Story", The Return Of The Space Cowboy - Jamiroquai]
[XVI. Dois] "Nada, nada."
# respirado por Vitor, 01:00
inquietações:


23.9.03

[ao som de "Gigantic", Surfer Rosa & Come On Pilgrim - Pixies]
«Afinal, é possível tocar as estrelas – pensou o gajo quando o dia estava já a nascer. Depois, sorrindo, foi-se deitar. Feliz por ter queimado as mãos.»
Manuel Jorge, no seu Apenas um pouco tarde
# respirado por Vitor, 01:22
inquietações:

[ao som de "Só", Só - Jorge Palma]
[XV. Dois] A tua vida e a minha, desde que te conheci, realmente conheci, poderia de facto resumir-se em duas palavras iguais, bastando para isso eu esquecer uma coisa, só uma coisa: como gosto de ti. Pormenor enorme, que me impede de ser normal, turva a alma e agita o espírito. Só isso.
# respirado por Vitor, 01:14
inquietações:


22.9.03

[ao som de "Wake Me Up Before I Sleep", In a Bar, Under the Sea - dEUS]
[XIV. Dois] Só quero que te vás embora, rapidamente, porque não sei o que fazer e muito menos o que dizer, porque os teus olhos verdes realmente bonitos, que eu sempre soube ler melhor que os meus, são para mim, neste momento em que o teu segundo café da manhã já chegou e tu o saboreias com estranhos olhos de prazer, um mistério grande que não consigo desvendar. Tenho medo que me vejas assim, porque sei que não serão as tuas mãos em cima das minhas, os teus olhos maternais ou a tua voz rouca, que o meu coração tanto gosta de ouvir e obedecer, a solução para mim neste momento.
"Então, menino? Que se passa contigo, afinal?"
# respirado por Vitor, 13:33
inquietações:


21.9.03

[ao som de algo assim]
... because there are things to be said.
# respirado por Vitor, 17:28
inquietações:

[ao som de "Dance Me To the End of Love", Live - Leonard Cohen]
[XIII. Dois] Por vezes a tentação do fácil é tão grande, que nos custa a resistir a ela. Somos melhores amigos, tão amigos como só os melhores amigos podem ser, mas nem por isso fui capaz de com isso contentar apenas com isso, porque quebrei nalgum ponto das nossas vidas – que até hoje tanto têm tido em comum –, um ponto onde conhecer-te por dentro e por fora, ser teu confidente, teu ombro amigo, e ter em ti o mesmo e mais ainda, não me chegou, sei lá porquê. Não sei porquê, mas sei que foi ontem, terça-feira que jamais esquecerei. Maldito café entornado, malditos olhos realmente bonitos e lábios, que só tu sabes usar e abusar, maldito de mim, que estou a colocar tudo isto em risco sei lá porquê, mas sabendo quando muito bem. Porque no fundo, no fundo nem sei se isto é amor ou outra coisa qualquer. E se te amo porque não o dizer agora? Porque se calhar é só um desvario, que me tornará um arrependido amanhã, mas sem desculpa aos teus olhos e aos meus, mesmo os teus olhos de mãe babada, que gosta de passar a mão na cabeça do seu filho querido. Desespero este que vivo e que ainda por cima nem sequer posso partilhar contigo, porque tu és a minha melhor amiga, minha confidente e conselheira, e, ao mesmo tempo, causa de todas as minhas dúvidas e dores.
# respirado por Vitor, 17:12
inquietações:

[ao som de "Of My Conceit", sings Salvadore Poe - Lisa Ekdahl]

# respirado por Vitor, 16:50
inquietações:


20.9.03

[ao som de "Por Isso Eu Corro", Perfil - Adriana Calcanhotto]
[XII. Dois] A luz irrompeu às sete horas e dois minutos.
Vesti-me, tomei o pequeno-almoço, sem café, porque estou sempre demasiado ensonado e sem paciência para o fazer. Só um pão com manteiga e um iogurte, tudo para não sair de casa com a consciência pesada por um estômago vazio. Lembro como ficavas, quando te dizia não tinha nada no estômago a meio da primeira aula da manhã, o teu ar zangado, e como eras capaz de me dar um estalo, sem o dar, e de acompanhá-lo com um sorriso, sorriso que ainda hoje é o teu sorriso, mas só para mim, porque os melhores amigos têm cumplicidades que mais ninguém entende, que não há, afinal, mais ninguém no mundo que possa entender. Saio de casa a imaginar-te naquele escritório empoeirado, que te tenta com um mundo diferente do meu. Um mundo que te faz feliz à sua maneira, e que ameaça poder colocar-me cada vez mais de lado, irremediavelmente longe de ti.
# respirado por Vitor, 21:05
inquietações:

[ao som de "Fear And Love", Acoustic - Morcheeba]
Um "até já" pode ser bem pior que um "adeus". Se calhar, porque vivo melhor comigo, sem ti, do que na dúvida da tua presença.
# respirado por Vitor, 18:56
inquietações:


19.9.03

[ao som de "Wolf At The Door", Hail To The Thief - Radiohead]
Leio no jornal que ontem à noite morreu uma mulher esfaqueada. Espero ontem não ter saído de casa... e tu, meu amor, saíste?
# respirado por Vitor, 12:58
inquietações:

[ao som de "The down set is tonight", A Way to Bleed Your Lover - Blind Zero e Jorge Palma]
[XI. Dois] Mal dormi esta noite e nem foi por causa do meu companheiro de quarto, caloiro simpático mas louco, a deliciar-se com as loucuras do primeiro ano de faculdade, incapaz de parar com a algazarra uma noite inteira. Mas ainda assim é um tipo simpático, amigo, que sabe estar lá quando dele preciso e que pode contar comigo como só os amigos podem contar uns com os outros. Isto apesar de não nos conhecermos há mais de quatro meses, o que é bem diferente dos anos, já feitos, que nos conhecemos. Fui para a cama quase com a obrigação de ter de dormir, quando sabia perfeitamente que a minha vontade era bem distinta, mas ainda assim fui para a cama, um mundo de lençóis revoltos, frios e vazios de ti, que eu tento preencher ao máximo, combatendo como posso uma solidão que já sei como derrotar. E só isso…
E podemos sentir que estamos sós quando menos esperamos. É como se a solidão fosse furtiva e só soubesse atacar pela calada da noite, apanhando-nos num qualquer recanto escuro das nossas vidas, no meio de uma multidão estranha, no quente de uma almofada bem quente, aquecida pelo nosso corpo frio, por debaixo de um corpo molhado por uma lágrima serpentina – fugidia e marota –, que nos faz recordar como magoa e dói sofrer sozinho.
Viro-me para um lado e para o outro, sem pregar olho a noite inteira. É como se gostasse de ficar assim, horas e horas sem fim, olhando um tecto mal iluminado pelas luzes fracas da rua, ouvindo barulhos estranhos, murmúrios silenciosos que corroem a minha alma furiosa. E sei que vou ter de acordar, parecendo insensível a tudo isto, obrigado a lábios de silêncio, a mãos nos bolsos, a salvo de uma loucura com a qual não sei lidar, a esquecer que o meu amor existe.
# respirado por Vitor, 01:26
inquietações:


18.9.03

[ao som de "Pára De Olhar Para Mim", O Monstro Precisa de Amigos - Ornatos Violeta]
«Amarei outras mulheres. Amar-te-ei em outras. Tu, todas. E todas, tu. Mas não voltarei a dar à paixão palavras excessivas e perigosas.»
Manuel Alegre, in "A Terceira Rosa"
# respirado por Vitor, 01:12
inquietações:

[ao som de "Another New Day", In Between - Jazzanova]
Poderia dizer-te uma imensidão de coisas, conta-te mil e uma histórias, mas, no fundo, se calhar nunca soube muito bem o que fazer contigo, comigo, connosco, afinal. Desculpa.
# respirado por Vitor, 01:08
inquietações:


17.9.03

[ao som de "Last Tango In Paris", La Revancha del Tango - Gotan Project]
Estou escondido, atrás de mim, com medo de ti. Evito que os teus olhos me descubram.
"Adeus, meu amor" – é o que tenho para te dizer, sem água nos olhos ou facas na alma.
# respirado por Vitor, 12:50
inquietações:

[ao som de "Resolution", The Richest Man In Babylon - Thievery Corporation]
Hoje deste-me um beijo e pediste-me segredo logo de seguida. Eu, concordei, menti. Porque não pude evitar – até hoje não o evito – contá-lo a mim mesmo de tempos a tempos.
# respirado por Vitor, 12:47
inquietações:

[ao som de "A Gente Vai Continuar", Só - Jorge Palma]
[X. Dois] O nosso silêncio de ontem, vejo que é também o de hoje, uma vez que nada mais conseguimos dizer para além do bom dia já dito, tão custosamente dito. Tu continuas a olhar para mim com o teu ar de sempre. Eu vejo os teus olhos verdes realmente bonitos, porque a eles não consigo escapar. Não só porque são grandes, mas porque são teus, se calhar é só por isso, porque são teus, e às tantas não são só os teus olhos, é capaz de ser tudo o que tu és, e que ontem descobri como realmente é, quando entornei o meu primeiro café da manhã, ao tempo que tomavas tu o teu segundo, por cima de uma mesa invisível, submersa em papéis e livros, quer meus quer teus e que hoje – quarta-feira seguinte à terça que jamais esquecerei, porque foi nela que me apaixonei por ti –, são livros e papéis irremediavelmente castanhos.
# respirado por Vitor, 12:40
inquietações:

[ao som de "Tenderly", Let's Do It - Louis Armstrong]

# respirado por Vitor, 01:08
inquietações:

[ao som de "Love Is Here To Stay", Swing It Back - Helyne Stewart]
«a deslocação interna dos orgãos vitais do amor em ruína asseguram a distância que de agora em diante nos diferenciará. não mais nos confundiremos em desencontros e súplicas, nem as feridas abertas reclamarão o bálsamo do nosso nome comum. em silêncio, o que havia de incerto estilhaça-se e desfaz-se para sempre. há partes de mim deslocadas. mas que talvez estejam a caminhar para o lugar a que pertencem.»
claire lunar, no seu little black spot
# respirado por Vitor, 00:59
inquietações:


16.9.03

[ao som de "Amigos", Lustro - Clã]
[IX. Dois] Também tu travaste palavras na tua boca por razões que não sei – nem eu, nem mais ninguém no mundo, afinal sou eu o teu melhor amigo –, e cumpriste um silêncio de dois segundos, dois segundos infinitos, que assim pareceram tanto para ti como para mim. Os teus lábios, que só tu sabes usar e abusar de uma forma que mais ninguém sabe, ficaram tristes por ficarem imóveis. Esses segundos passaram, sem que nem eu, nem tu, tivéssemos palavras prontas a lançar para o ar vazio que estava entre nós, e a eles se seguiram mais dois segundos, segundos aparentemente iguais a todos os outros que vivemos desde que um dia nos cruzamos na faculdade, mas que nós sabíamos – tal como sei serem realmente bonitos esses teus olhos verdes –, serem só aparentemente iguais.
# respirado por Vitor, 13:54
inquietações:


15.9.03

[ao som de "Spies", Parachutes - Coldplay]
[VIII. Dois] Quanto tempo mais poderá durar o meu primeiro café da manhã coincidente com o teu segundo? Em que falamos das nossas vidas, dos nosso amores e amantes, em que lemos o jornal do dia e criticamos o filme da véspera? Até quando conseguiremos viver juntos duas realidades, tu a tua e eu a minha, que é tão, mesmo tão diferente da tua. Ainda por cima, sabendo hoje, quarta-feira, numa altura em que o teu café já deve estar a caminho e o meu já vai a meio, mas que será sempre depois de ontem, terça-feira diferente das outras, porque foi nela que me apaixonei por ti, que os teus olhos verdes são realmente bonitos.
# respirado por Vitor, 13:00
inquietações:


14.9.03

[ao som de "Pastelaria", Os poetas, entre nós e as palavras - Mário Cesariny]

# respirado por Vitor, 15:28
inquietações:


13.9.03

[ao som de "Amsterdam", A Rush Of Blood To The Head - Coldplay]
«Agora que chegaste não quero ainda rever-te. Vi no horário que vens de comboio, irei pois esperar-te ao autocarro. Hoje vou dormir ainda do teu lado da cama, onde tem a almofada mais macia. Uma primeira troca de olhares e saberei como trazes a alma, depois lentamente outros bocados de ti chegarão, não tenho pressa. Quando finalmente chegares será de mansinho. Um beijo para ver se és real. Recolhes bocados de cada divisão da casa, e um outro quando te sentas no banco do carro que estava enfadado de apanhar pó. Só depois de percorrer todos os teus rituais do dia-a-dia poderás realmente chegar.»
PC, no seu A aba de Heisenberg
# respirado por Vitor, 16:17
inquietações:

[ao som de "Bailar Contigo", Compay Segundo - Compay Segundo]
[VII. Dois] Puxas a cadeira, sentas-te bem à minha frente, pousas a carteira ao meu lado, na cadeira que estava vazia e eu ansiava ocupada por ti, levantas o braço, agitas ao de leve dois ou três dedos – não sei bem – e pedes o teu café. O teu segundo café, que tomas sempre por volta desta hora, que eu sei que tomas, porque olhar para ti esta manhã é lembrar, mais intensamente que o costume, a miúda de cabelos ondulados e olhos verdes realmente bonitos, que um dia me apareceu tão miúda e inocente nos corredores da faculdade, na altura com olhos que só bonitos achei.
Fiquei sem palavras na boca, um vazio que sabia não poder ocupar com outra coisa que não fosse a tua boca, esconderijo da tua voz rouca, voz de mãe que sempre adorei, e calei-me. Um silêncio que não soube controlar, silêncio longo que durou apenas dois segundos. Tu olhaste para mim, com olhos de melhor amiga, confundida com ares de mãe babada, e soubeste, também ali, que havia algo diferente em mim, mas não tiveste coragem para perguntar o quê, tal como eu não tive forças para o dizer. Se calhar, porque falar fosse a última das minhas preocupações, ocupado que estava por ti, minha bela morena de olhos verdes bonitos, realmente bonitos.
# respirado por Vitor, 14:32
inquietações:


12.9.03

[ao som de "Momentum", Magnolia - Aimee Mann]

# respirado por Vitor, 15:05
inquietações:

[ao som de "Dream With Someone Else's Dream", Vinyl - The Gift]
[VI. Dois] Nunca deixamos de nos ver. Mais, nunca deixamos de no ver continuamente, porque era rotina diária ver-te, falar contigo, dizer-te coisas que só ao meu melhor amigo devia contar. E tu fazias o mesmo, se calhar porque o meu melhor amigo eras mesmo tu, e eu o teu. Melhores amigos, confidentes um do outro por isso mesmo, conhecedor de todos os teus namorados e amantes, amigo de alguns até, porque nunca vi – pelo menos até ontem –, razão para os recear ou desejar longe, do outro lado da lua, da mesma lua branca que, todas as noites, está por cima de nós e agora está a um palmo de mim. Os teus segredos, tal como os meus, não eram afinal nada disso para nenhum de nós, porque sempre fui, tal como tu, incapaz de te esconder fosse o que fosse, mesmo que o meu desejo fosse contrário a isso. Os meus olhos sempre me denunciaram, incapazes que eram de te enganar. E sempre vivemos assim, conscientes do nosso poder, da nossa intimidade, do nosso amor, que de sempre julguei de amigo. Pelo menos até ontem, terça-feira que jamais esquecerei, e que será eterna num mundo de coisas boas, que conservo só para mim e que estava habituado a partilhar só com o meu melhor amigo, digo amiga, desculpa.
# respirado por Vitor, 14:56
inquietações:


11.9.03

[ao som de "Alright 6 High Times", Travelling Witrhout Moving - Jamiroquai]
[V. Dois] Fui teu colega de faculdade durante anos a fio, mas nem por isso esses anos deixaram de me dar uma sensação estranha, muito estranha. Estranha porque apesar de saber que foram anos, hoje parecem-me dois dias, aqueles em que estudamos juntos, tão rápido que foi e desaproveitado também. Continuas igual a ti, àquela miúda de cabelos ondulados e olhos verdes de chinesa lindos. Tão impressionantemente igual, que olhar para ti é ver a miúda de então. E tu sabes isso, sabes que estes dois anos que passaram desde que te licenciaste foram dois dias, dois segundos que não te deram tempo de mudar, para seres diferente aos meus olhos, que já desde então sempre cruzaram os teus a meio do teu segundo café da manhã, na altura condicionado por duas aulas quaisquer. Mas nem por isso, engraçado lembrá-lo, a hora mudou muito desde então, porque são dez e meia, hora a que era costume ser o intervalo entre aquelas duas aulas. Recordo a paciência com que me explicavas dúvidas minhas e como, com aquele jeito de mãe, me dizias para não me distrair tanto, mal sabendo eu que a razão do meu mal eras tu. E nunca eu o soube até ontem, terça feira que jamais esquecerei, em que entornei o meu primeiro café da manhã, ao mesmo tempo que tomavas tu o teu segundo, por cima de uma mesa afogada em folhas e livros, naquele café que fica ao lado do teu escritório, escritório empoeirado e claustrofóbico que te afasta de mim.
# respirado por Vitor, 09:39
inquietações:


9.9.03

[ao som de "Um Pouco de Céu", ao vivo - Mafalda Veiga]
[IV. Dois] Escusado será dizer que o café ao fim de tantas ameaças se entornou e só o meu ar tão alienado de tudo aquilo que se estava a passar, apontamentos e livros castanhos, agora irremediavelmente castanhos e molhados, me serviu de desculpa e me deixou ser num só segundo julgado e absolvido. Adorei ser perdoado por ti, pelo teu jeito de mãe babada que não sabe como se comportar quando o filho mais querido, querendo beijá-lo, dizendo "não te preocupes... não é nada, não é nada...", cada vez mais baixinho, cada vez mais perto do coração. Do meu coração que estava agora embaraçado, só porque no instante em que o café quente por cima das pernas o chamou aquela mesa invisível, pensou poder ser crime estar a um palmo da lua branca, que logo, mais cedo do que tu possas pensar, também poderá estar a um palmo de ti.
# respirado por Vitor, 20:53
inquietações:

[ao som de "In My Secret Life", The Essential - Leonard Cohen]
«Ela sabia. Sempre soube. O cano da arma encostada à sua face. Respiro. Ela respira também. Acompanha com o peito o movimento do meu peito. O suor desce-me devagar da testa para os lábios. Ela sabe. Olha-me fixamente. Sou eu quem manda aqui. Ela pergunta:
- Vais-me deixar sair daqui?
- É claro que não. Sempre soubeste que isto acabaria assim, ou não?»

antónio, no seu Cidade do Pecado
# respirado por Vitor, 20:16
inquietações:


8.9.03

[ao som de "Água Cinzenta", Chrorinho Feliz - Maria João e Mário Laginha]
«trago-te escondido. como um segredo. intímo e só meu. não quero análises, nem perguntas de mais ninguém. quero-te só para mim. durante uma hora, um dia, um mês. quero-te dentro de mim.
Na memória...»

Maria, no seu Luar
# respirado por Vitor, 19:44
inquietações:

[ao som de "One Tree Hill", The Joshua Tree - U2]
[III. Dois] E ainda hoje é quarta-feira de manhã, meio da manhã, hora próxima daquela em que tu costumas abandonar aquele escritório empoeirado, repleto de zombies, esmagado por corpos que lá se mexem num frenesim que tem tanto de eléctrico como de louco, de velocidade como de injustificabilidade, só porque se pensa que o mundo é assim, tão assim. Mas é a meio das manhãs, de todas as manhãs que vão de segunda a sexta-feira, que pegas na carteira e em meia dúzia de papéis, vestes o casaco, que quase nunca é aquela cinza que adoro ao ponto de não ter palavras para o descrever, ou pelo menos para te dizer o que sinto quando te vejo com ele, e desces por aí abaixo. E imagino-me a seguir-te. Primeiro pela escada, depois esperando por contigo à porta do elevador a olhar todas aquelas luzinhas, que indicam que está mais próximo, e a sair pelo edifício fora, parecendo, tal como tu, com vontade de fazer viagens transcontinentais ou interplanetárias, mas a ficar pela porta que fica já ao lado, porta do café onde, na realidade, já espero pelo meu primeiro café e onde tu certamente irás pedir o teu segundo.
“Bom dia.”
# respirado por Vitor, 19:40
inquietações:


7.9.03

[ao som de "Naufragio", Buenos Hermanos - Ibrahim Ferrer]
[II. Dois] Não fiz por evitar falar de coisas que nada importavam à altura, tudo porque um turbilhão varria ali o meu íntimo, conturbado implacavelmente por ti, pela forma suave e discreta com que pagavas na chávena do teu café, que casualmente, quase tanto como nós, se encontrava a par do meu, no meio de uma mesa impossível de ver, atolada que estava de livros e apontamentos, quer teus quer meus, que afinal pareciam ser a razão pela qual falávamos e me faziam ver como é fácil não estarmos onde realmente estamos. As estrelas que povoam o céu invariavelmente escuro, noite sim noite sim, acompanhadas de uma lua branca, também ela invariavelmente branca, que arremessa para cima das nossas cabeças e para dentro dos nossos corpos auras de mistério e fascínio, que raras consigo entender e combater, pareciam-me a mim, naquele instante em que falava contigo a meio do teu segundo café da manhã, sobre uma mesa mal se via, tão próximas, tão incrivelmente próximas. Estive ali sem estar tempos infinitos, que não dei conta como passaram porque estava distraído e nem me importava de o estar, antes pelo contrário. Foram vezes sem conta as que pegaste naquela chávena que estava a par da minha e pela qual saboreaste, com estranhos olhos de prazer, um café igual ao meu, mas que a mim nada soube, porque a ele não prestei atenção, nem podia prestar. Se calhar acabo de encontrar o motivo pelo qual mais de uma vez quase o entornei, com toques sem querer. Toques fruto de gestos longos, irrequietos, ilusionistas e falsos, tão falsos como seria dizer-te que estava mesmo ali, ao teu lado, a tomar o meu primeiro café da manhã, quando já tu tomavas o teu segundo, estando na verdade a um passo pequeno da lua, sempre tremendamente branca e misteriosa.
# respirado por Vitor, 23:43
inquietações:

[ao som de "Pasión", Pasión - Rodrigo Leão]
[I. Dois] E ainda hoje é quarta-feira. Não longe de ontem, dia em que te conheci, dia em que realmente te conheci. Porque não foi o falar contigo, dizer-te “Bom dia.”, dia após dia, sempre a meio do teu segundo café da manhã, ao longo de todos estes anos, que me fez conhecer-te, realmente conhecer-te. Não foi o estar contigo que me obrigou a não estar comigo, porque isso seria amar-te como agora o faço, neste momento em que o sol acaba de nascer e eu desabafo a um espelho, um espelho só meu, olhando um rosto igual a um rosto que toda a minha vida vi, mas que hoje me parece diferente do de ontem, não encontrando um único poro em comum até, com aquele que ainda ontem vi, porque só te vejo a ti, aos teus olhos verdes, aos teus lábios e à forma como os colocas, usas e abusas quando sorris. Vítima disto, morto todos os dias desta minha vida, quase sem da morte me ter dado conta, porque agora sei com certeza que a tua cara é uma morte muito doce. Foi morrer e só me aperceber disso a meio caminho do céu. Um dia, perdido entre tantos outros iguais, mas que hoje sei ter sido ontem, terça-feira que jamais esquecerei, em que cruzei contigo a meio do teu segundo café da manhã, o meu primeiro, porque não tenho paciência para fazê-lo em casa quando me levanto e estou atordoado pelo sono de uma noite sempre demasiado curta, acho que me apaixonei por ti ou algo parecido com isso.
# respirado por Vitor, 17:45
inquietações:

[ao som de "Do You Love Me", The Best of - Nick Cave & the Bad Seeds]
«Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro (...)»
Bia, no seu Pensamentos Imperfeitos
# respirado por Vitor, 16:22
inquietações:


6.9.03

[ao som de "What Sound", What Sound - Lamb]
O dia acaba a meio deste meu café, num tom alaranjado e fugaz. Acabo o café, pago a conta, atravesso a rua e subo ao quarto andar do costume. Abro a porta do apartamento e fecho-a pesadamente atrás de mim. Dispo-me, adoro andar só de boxers pela casa fora. Enquanto vejo o telejornal, como qualquer coisa a que chamo jantar. E por ali fico, sentado neste sofá velho.
Amar-te, é precisamente o contrário disto.
# respirado por Vitor, 21:12
inquietações:

[ao som de "Lobo Malvado", ao vivo no Johnny Guitar - Palma's Gang]
«Estas saudades
o que são
?
A memória a latejar
uma urgência domada
contida
calada
guinadas de ti
e medo.»

Sa, no seu A Espuma dos Dias
# respirado por Vitor, 01:55
inquietações:

[ao som de "Fly Away", Greatest Hits - Lenny Kravitz]
«O mundo devia fechar de vez em quando. Nem sequer para balanço. Só para que o vento, chegado do alto da terra, nos obrigasse a respirar. Seria um longo sábado de Verão.»
Francisco, no seu Aviz
# respirado por Vitor, 01:45
inquietações:

«Sorry / Is all that you can't say / Years gone by and still / Words don't come easily / Like sorry like sorry»
Tracy Chapman
# respirado por Vitor, 01:36
inquietações:


5.9.03

[ao som de "Baby Can I Hold You", Telling Stories - Tracy Chapman]
«Matam-te porque mataste, um jogo de consequência que me perturba, mesmo quando te oiço dizer, numa derradeira entrevista:
“Deveria haver mais pessoas a fazer o que eu fiz.”»

H., no seu Abram os Olhos
# respirado por Vitor, 21:21
inquietações:

[ao som de "As I Sat Sadly By Her Side", No More Shall We Part - Nick Cave & the Bad Seeds]
«É engraçado imaginar-te casado, disse ela, olhando para a aliança no meu dedo.
Porquê?, perguntei eu.
Porque sempre achei que não eras o tipo. Não tão cedo, pelo menos.
E tu? Também estás casada? E ela disse-me que tinha mais um filho – de oito anos – mais um filho de uma relação que não correra bem.»

Alberto Cinza, no seu Meridiano
# respirado por Vitor, 21:13
inquietações:

[ao som de "Maria La O", Mambo Sinuendo - Ry Cooder, Manuel Galbán e Ernesto Lecuona]
«Se quando temos insónias estamos a evitar sonhar, o que é que estamos a evitar dizer quando não temos "nada para escrever"?»
Ivan, no seu A Praia
# respirado por Vitor, 20:59
inquietações:


4.9.03

[ao som de "Sun Rose", sings Salvadore Poe - Lisa Ekdahl]
«pergunta: ?
resposta: ...»

D, no seu Leite.de.Creme
# respirado por Vitor, 12:46
inquietações:

[ao som de "Resolution", The Richest Man In Babylon - Thievery Corporation]
«Tranquiliza-me a tua presença.
Aquece-me o teu abraço.
Delicia-me o teu beijo.»

Ana, no seu Lua
# respirado por Vitor, 00:02
inquietações:


3.9.03

[ao som de "Tatuagem", Tatagem - Mafalda Veiga e Jorge Palma]
«Em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti»

# respirado por Vitor, 23:49
inquietações:

[ao som de "You are my love", Travelling Without Moving - Jamiroquai]
Estamos num tempo em que precisamos de tudo menos um do outro.
# respirado por Vitor, 23:30
inquietações:


[O Navio de Espelhos]

O Navio de espelho
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrecto

(Como os olhos da mosca
reflectem os objecto)

E quando um deles ala
O corpo sobre os mastro
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os mastro)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny
A Cidade Queimada,
o navio de espelhos XIII
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