[noite escura]
[noite: s.f. espaco de tempo entre o crepusculo e o amanhecer; obscuridade reinante nesse tempo] [escura: adj. obscura; falta de luz]

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14.3.04

[ao som de "Throw It Away", Cassandra Wilson - Glamoured]
«{A Estupidez}
Se a estupidez, com efeito vista por dentro, não se confundisse com o talento, se, vista por fora, não tivesse todas as aparências do progresso, do génio, da esperança, ninguém desejaria ser estúpido e não existiria a estupidez. Pelo menos seria muito fácil combatê-la. O pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o génio de Van Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rentável ser-se um dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais igual do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se em qualquer direcção e assumir todos os trajes da verdade. A verdade, essa só tem um traje, um só caminho, por isso fica sempre de pior partido.»

Robert Musil, in "O Homem sem Qualidades", relembrado por dolphin.s no seu Silêncio
# respirado por Vitor, 21:47
inquietações:


10.3.04

[ao som de "Accuracy", The Cure - Three Imaginary Boys]



# respirado por Vitor, 01:34
inquietações:


9.3.04

[ao som de "What's Wrong With This Picture", Van Morrison - What's Wrong With This Picture]
Houvesse justiça neste mundo e jamais poderíamos estar aqui como estamos, como para aqui estamos. Calados, mudos, silenciosos, eu com a minha mão por cima da tua, tu com a tua afagada pelo quente da minha. Estou habituado a ti e tu igual. Este conformismo matou-nos – a ti e a mim – numa qualquer curva escura desta nossa vida. Ele devorou-nos e banqueteou-se com estas duas almas – almas duras, almas vazias –, duas almas derrotadas. Mas continuamos aqui, os dois juntos, eu no exíguo lado esquerdo desta cama, e tu já aqui ao lado, numa vida qualquer, longe e diferente da minha.
# respirado por Vitor, 02:00
inquietações:


7.3.04

[ao som de "Big Time Sensuality", Bjork - Debut]
«#26
Aquilo que pensamos devora-nos enquanto esperamos.»

Paula, no seu Deslizar no Sonho
# respirado por Vitor, 21:45
inquietações:

[ao som de "Rebel Rebel", David Bowie - Reality]



# respirado por Vitor, 16:49
inquietações:


6.3.04

[ao som de "Pagu", Maria Rita - Maria Rita]
«O grande problema da vida é saber como viver entre os homens»
sublinhado por Eduardo Graça e coleccionado por JPP no seu Cadernos de Camus
# respirado por Vitor, 20:55
inquietações:

[em silêncio]
«Que é que eu penso do amor? — Em suma não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência não em essência. O que quero conhecer (o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso amoroso). A reflexão me é certamente permitida, mas essa reflexão é logo incluída na sucessão das imagens, ela não se torna nunca reflexividade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas as outras) não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano, só poderia esperar pegar o conceito "pelo rabo": por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: "O lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre embaixo da lâmpada.»
Roland Barthes, encontrado por carlos no seu Sebenta
# respirado por Vitor, 20:45
inquietações:

[ao som de "Cortazon partio", Maria João e Mário Laginha - Undercovers]
Não te entendo. Da mesma forma que tu não me entendes.
Tu nunca me quiseste entender.
Eu só entendi isso tarde demais. Para mim.
# respirado por Vitor, 02:13
inquietações:


5.3.04

[ao som de "Águas De Março", Elis Regina e Tom Jobim - Elis Regina & Tom Jobim]
Só sinto este vento. Um vento forte e que me impede de te ouvir, que não me deixa falar. Gesticulas bruscamente e olhas fundo nos meus olhos, ao tempo que os teus lábios falam de coisas que não entendo.
Aquietaste... e não fosse o vento perturbador, nada mais haveria para além de dois corpos, um defronte do outro, e silêncio, um silêncio imenso, um silêncio enorme.
Voltas-me costas e caminhas, zangada, sem parar, sem hesitação. Levas tudo contigo, menos estas lágrimas. Lágrimas secas, lágrimas mudas, lágrimas minhas.
# respirado por Vitor, 01:19
inquietações:


2.3.04

[ao som de "The stranger song", Leonard Cohen - The Essential]
Há coisas que todos sabem, mais tarde ou mais cedo.
Há outras que tu jamais saberás, nem hoje nem nunca.
# respirado por Vitor, 13:42
inquietações:


[O Navio de Espelhos]

O Navio de espelho
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrecto

(Como os olhos da mosca
reflectem os objecto)

E quando um deles ala
O corpo sobre os mastro
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os mastro)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny
A Cidade Queimada,
o navio de espelhos XIII
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